O privilégio das coisas difíceis - sobre Nobuyoshi Tamura Sensei
[Imprimir] Artigo de: Eduardo Tavares Publicado em: 2010-07-16
Temos por vezes a sorte na vida de
conhecer pessoas que se destacam da normalidade, que nos mostram que
há outras formas de estar no mundo, que há vida maior que a dos
nossos pequenos mundos, que a dos nossos pequenos hábitos e desejos.
Normalmente não são pessoas fáceis.
No meu caso foi sempre fácil. Estive
com Mestre Tamura diversas vezes em estágios realizados nos
congressos da Federação Europeia de Aikido. Tive a oportunidade de
o observar em reuniões e refeições junto dos seus alunos mais
chegados e pude ver como se relacionava com essas pessoas, de forma
calorosa e doce, sempre com um sorriso, sempre com uma piada. Quando
me encontrava fazia sempre questão de dar uma boa palmada na minha
barriga...
Quando o conheci, foi no bar de um
hotel, em que ele, que não me conhecia de lado algum, se sentou ao
meu lado e perguntou: "Comment ça va?" Com toda a
simplicidade e simpatia que não esperamos daquele que era
reconhecido em todo o lado como um dos maiores na sua Arte. Alguém
que eu vi ser tratado no Japão com mais respeito e deferência que
ao próprio Doshu. Mas era assim que tratava as pessoas e por isso
elas tinham por ele um carinho realmente especial.
No tapete, o Mestre Tamura mostrava
também essa doçura. Sobretudo com as crianças e com os
principiantes. Porém, à medida que subia a graduação e a
proximidade a ele enquanto aluno, o seu lado doce era gradualmente
substituído por um grau de exigência proporcional. Assisti num
estágio que, ao passar por um dos seus alunos mais graduados
(Fukakusa Sensei, Shihan, 7º Dan), viu qualquer coisa que não lhe
pareceu bem. Não faço a menor ideia do que seria. Nem eu nem
se calhar ninguém... Mas assisti à maior "tareia" que alguma vez vi
em cima de um tapete. O Mestre Tamura não parou enquanto teve a
certeza de que ele percebia o que estava a ser corrigido. Os
presentes, na sua maioria altos graduados, estavam lívidos...
Fukakusa Sensei é um homem simpático
e agradável, que estará por volta dos seus 65 anos. Foi ele que
iniciou o Aikido na Tailândia e é responsável pela Thai Aikikai.
Não é qualquer um. Foi um privilegiado. Pôde ser levado a
compreender coisas que nós nem sabemos se existem ou não.
Assisti em diversas ocasiões ao Mestre
Tamura a mostrar técnicas que ninguém, nem mesmo os seus alunos
mais chegados, conseguiam reproduzir. Talvez por isso, ouvi diversas
pessoas queixarem-se de que pouco se aprendia nos seus estágios, ou
que a sua pedagogia não era a melhor. O mesmo se dizia também de
O'Sensei. Talvez que apenas o tempo nos permitirá perceber se isso
era verdade.
Tenho porém pensado que se calhar, o
que todos nós queremos é que nos mostrem e ensinem aquilo de que já
somos capazes... Talvez que a função dele não fosse a de nos
ensinar, mas a de mostrar. Talvez o Aikido seja uma experiência
interior e profunda que não pode ser ensinada. Mostra-se. "Está
aqui, é esta a minha expressão do Aikido", talvez ele pudesse
dizer.
Eu tive um dia a oportunidade de lhe
perguntar pessoalmente o que era o Aikido. Respondeu-me: "Je ne
sais pas, je cherche encore...". Eu também não sei..., mas
agrada-me pensar que o Aikido é aquilo que eu vi um dia, nos seus
movimentos límpidos e claros.
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